quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Tiro de Misericórdia - João Bosco



"O menino cresceu entre a ronda e a cana
correndo nos becos que nem ratazana.
Entre a punga e o afano, entre a carta e a ficha
subindo em pedreira que nem lagartixa.
Borel, Juramento, Urubu, Catacumba,
nas rodas de samba, no eró da macumba.
Matriz, Querosene, Salgueiro, Turano,
Mangueira, São Carlos, menino mandando,
ídolo de poeira, marafo e farelo,
um deus de bermuda e pé-de-chinelo,
imperador dos morros, reizinho nagô,
o corpo fechado por babalaôs.

Baixou Oxolufã com as espadas de prata,
com sua coroa de escuro e de vício.
Baixou Cão-Xangô com o machado de asa,
com seu fogo brabo nas mãos de corisco.
Ogunhê se plantou pelas encruzilhadas
Com todos seus ferros, com lança e enxada.
E Oxossi com seu arco e flecha e seus galos
e suas abelhas na beira da mata.
E Oxum trouxe pedra e água da cachoeira
em seu coração de espinhos dourados.
Iemanjá, o alumínio, as sereias do mar
e um batalhão de mil afogados.

Iansã trouxe as almas e os vendavais,
adagas e ventos, trovões e punhais.
Oxum-Maré largou suas cobras no chão.
Soltou sua trança, quebrou o arco-íris.
Omulu trouxe o chumbo e o chocalho de guizos
lançando a doença pra seus inimigos.
E Nana-Buruquê trouxe a chuva e a vassoura
Pra terra dos corpos, pro sangue dos mortos.

Exus na capa da noite soltara a gargalhada
e avisaram a cilada pros Orixás.
Exus, Orixás, menino, lutaram como puderam
mas era muita matraca e pouco berro.
E lá no horto maldito, no chão do Pendura-Saia,
Zumbi menino Lumumba tomba da raia
mandando bala pra baixo contra as falanges do mal,
arcanjos velhos, coveiros do carnaval.

- Irmãos, irmãs, irmãozinhos,
por que me abandonaram?
Por que nos abandonamos
em cada cruz?

- Irmãos, irmãs, irmãozinhos,
nem tudo está consumado.
A minha morte é só uma:
Ganga, Lumumba, Lorca, Jesus...

Grampearam o menino do corpo fechado
e barbarizaram com mais de cem tiros.
Treze anos de vida sem misericórdia
e a misericórdia no último tiro.

Morreu como um cachorro e gritou feito um porco
depois de pular igual a macaco.
Vou jogar nesses três que nem ele morreu:
num jogo cercado pelos sete lados."

Tiro de Misericórdia - João Bosco) 

https://www.vagalume.com.br/joao-bosco/tiro-de-misericordia.html

 PS.: eu juro que uma madrugada dessas eu posto minha análise sobre ela , mas de momento ,só falo o silêncio ,,,,






PS.: eu juro que uma madrugada dessas eu posto minha análise sobre ela , mas de momento ,só falo o silêncio ,,,,





terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Beijo de beija-flor

Beija-flor
Que beija a flor do meu jardim.
Asas coloridas
Cor do meu jasmim.

A flor que também beija
O beijo
Do beija-flor,

Tem o bico comprido
Que é pra sugar o que há 
o que há na flor do amor.

O beija-flor que beija
Beija com furor
E a minha rosa desabrocha
E até a rocha sente calor.

Beija eu e eu beijo ela
Matando  a sede minha
Aí então as abelhas também beijam
Beijam o beijo da rainha .

Beija-flor
Beija-rosa
Beija minha boca
Oh meu amor .


Sente o doce que carrego
Pois é com carinho que lhe entrego
Este beijo de beija-flor.


(desenho de Geovani Zarpelon )

domingo, 8 de janeiro de 2017

O menino que cheirou muito feijão

eu tinha seis
eu tinha um amigo
e ele tinha três.
colocou uns feijões no nariz 
e quis brincar 
com a morte
achando que com ela existia café com leite
cheirou tanto
que se entupiu 

eu não esqueço
sua mãe chorando com os grãos nas mãos
dizendo: meu filho
se foi
e eu lembro
ele sempre admirava o cemitério 
acima de nossas casas
e cabeças
e hoje lá é onde ele esta
não brilha, por que não é estrela
não nos vê , por que os olhos estão secos
não cheira , por que abusou desse sentido
SENTIDO ?
que sentido há
alguém tão neném perecer
sem ao menos poder puxar o ar para poder chorar 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

"Eu sabia que era alguém .... "

Ele cheira  a tinta nova
Recém passada ,
Por onde passa
Deixa marcas da mais introspectiva Arte.

Gosta de brincar de deus
ou  pelo menos brinca ao Seu lado
E assim , como num par de Criadores
ele ajuda a esculpir em nosso interior o que falta   ao mundo lá fora.



"....sem rosto e identidade. Tendo que ser forte como o mundo mas delicada como uma folha em Outono." - HELDER